Olhar estrangeiro: isolamento na floresta ajudou Khedira a ir para a Copa
Jens Kirschneck e Christoph Biermann
Do 11Freunde (Alemanha)*
Na verdade é muito estranho que algo assim tenha acontecido com uma pessoa como ele. "Foi uma perda momentânea de controle, ou me excedi no lance", diz Sami Khedira, sempre que se lembra do evento de 15 de novembro de 2013. A partida entre seleções daquela noite, contra a Itália, foi muito disputada, marcada por muitos acontecimentos que desequilibraram o normalmente controlado meia alemão. As travas da sua chuteira se prenderam no gramado e ele torceu o joelho, rompendo tanto o ligamento cruzado anterior quanto o ligamento colateral medial do joelho.
Não existe muita coisa pior que possa acontecer com a perna de um jogador de futebol, e por isso o diagnóstico em circunstâncias normais diria: a temporada de Sami Khedira terminou. Contudo, essa não era uma circunstância normal. Nunca é em ano de Copa do Mundo. Como também não é normal quando você está com 27 anos, a época em que dizem que os jogadores de futebol estão no ápice, físico e técnico. Não existem muitas oportunidades na carreira de um jogador de futebol para participar de uma Copa do Mundo e qualquer atleta que saiba o que competição significa não desiste facilmente.
Por causa disso, minutos depois daquele incidente, Khedira estava novamente de volta à sua verdadeira personalidade. Controlado. Planejando o futuro. Quase frio e calculista. Mesmo antes de chegar ao hospital, ele já tinha telefonado da ambulância para o médico que operou seu joelho quando ele era jovem e marcado a operação para o dia seguinte. Ele também telefonou para a comissão técnica de seu clube empregador, o Real Madrid, e pediu que enviassem os médicos do time para a Alemanha na manhã seguinte.
Quando ele retornou do hospital para o hotel da seleção naquela noite em uma cadeira de rodas, ele atravessou uma pequena reunião de pessoas que comemoravam a partida de número 150 de Joachim Low como técnico da seleção alemã. Por volta do meio-dia do dia seguinte, menos de 16 horas após a lesão, ele foi operado na Alemanha.
Daquele dia em diante, Sami Khedira dedicou toda a sua vida ao objetivo de chegar recuperado à Copa do Mundo. O seu incentivador mais obstinado neste processo foi ninguém menos do que o próprio técnico da seleção. "Com sua experiência e personalidade, ele é indispensável à seleção", disse Low, que ainda afirmou que esperaria até o último minuto pela recuperação de Khedira e declarou que o convocaria mesmo que ainda estivesse sem ritmo de jogo. Por outro lado, Low também sempre enfatizou que só convocaria jogadores que estivessem em forma para o torneio. Enquanto Mario Gómez foi deixado de lado sem cerimônias após se lesionar ("Considerando as condições no Brasil, eu acredito que ele não seria capaz de suportar o esforço físico"), fica a impressão de que o técnico teria levado Khedira para a Copa do Mundo com apenas uma perna se fosse preciso.
Por que será? Bem, apesar do seu valor não ser totalmente reconhecido pelo público em geral, Khedira é em vários aspectos o jogador mais importante de Low. Em um time caracterizado por uma enorme qualidade ofensiva, ele organiza o meio de campo defensivo e representa o exemplo favorito de jogador do técnico: um bom leitor do jogo, disciplinado e capaz de implantar as instruções do técnico com perfeição. Não é de se admirar que os técnicos do Real Madrid, José Mourinho e Carlo Ancelotti, também valorizassem o estilo de jogo de Khedira. No meio de vários artistas ele exerce a função do maestro despretensioso, e a seleção alemã, que não possui um Pirlo ou um Xavi, precisa de pelo menos um Sami Khedira.
Filho de mãe alemã e pai tunisiano, Khedira é um profissional exemplar. Como cresceu em uma região provincial operária, não muito sofisticada, no sudoeste da Alemanha, seu caráter foi moldado como a dos alunos internos da academia para jovens VfB Stuttgart, que possui um código de conduta que exige que seus alunos dirijam um adequado "Bom dia" para qualquer membro do quadro de funcionários que encontrem. Khedira, como capitão dos juniores do Stuttgart, foi campeão alemão em várias categorias. Aos 19 anos, ele jogou sua primeira partida na Bundesliga e quando tinha 20 já era novamente campeão, desta vez do time principal. Quando Michael Ballack se contundiu, pouco antes da Copa do Mundo de 2010, Khedira ocupou o seu lugar e fez um excelente torneio ao lado do seu companheiro mais ofensivo, Bastian Schweinsteiger.
Logo em seguida ele foi para o Real Madrid, e deste momento em diante qualquer lista de convocação para a seleção alemã sem o seu nome passou a ser inimaginável, uma carreira dos sonhos, até...aquela noite de novembro do ano passado.
Khedira encarou o seu período de recuperação com o mesmo espírito que enfrentou toda sua carreira: uma dedicação inabalável e disciplina exemplar. Ele passou várias semanas em uma clínica isolada na floresta da Baviera, totalmente afastado de qualquer possível distração. "Não concentrar meus esforços no que eu precisava fazer naquele momento provavelmente teria tornado as coisas mais difíceis para mim", ele disse. "Vários amigos queriam me visitar, mas não permiti nem isso".
Só existia o trabalho, o trabalho e mais trabalho. Enquanto o técnico da seleção aguardava ansioso e o público alemão encarava suas chances de recuperação com ceticismo, Khedira travava sua batalha solitária. "Durante momentos como aquele você passa a se conhecer melhor", ele disse. "Você encontra forças em si mesmo, como a resistência mental e a habilidade de lutar para alcançar a vitória. Mas suas fraquezas também aparecem mais claramente". Quais fraquezas, nós não sabemos.
No dia 11 de maio Khedira fez sua reestreia no Real Madrid, menos de seis meses após a lesão sofrida em Milão, o que para uma contusão da gravidade que sofreu, foi uma recuperação no menor espaço de tempo que se poderia esperar. Isso, é claro, não é garantia de que ele estará em sua melhor forma quando a Copa do Mundo começar ou que ele aguentará os rigores dos sete jogos de um torneio como esse. Contudo, como já falamos, Low provavelmente o levaria com apenas uma perna. E agora ele já está com uma perna e meia, pelo menos.
Como joga a Alemanha
Quando o Bayern de Munique foi derrotado por 4 a 0 em casa na semifinal da Liga dos Campeões deste ano, as discussões sobre a partida logo se estenderam à seleção alemã. Joachim Low deveria colocar a seleção para jogar como o Bayern ou, quem sabe, como o Borussia Dortmund? Em outras palavras, deveria acreditar na filosofia da posse de bola ou basear o esquema de jogo da seleção na pressão defensiva e nas rápidas transições da defesa para o ataque?
"Suas ideias são excelentes", teria dito o técnico alemão após o seu primeiro encontro cara a cara com Pep Guardiola. Alguns meses depois ele até acrescentou: "Em vários pontos, ele pensa exatamente como eu". Isso inclui a vontade de dominar o meio de campo com um sistema baseado no 4-2-3-1, como na maioria dos clubes da Bundesliga. Sobre esse ponto, o técnico da seleção recentemente explicou: "Eu não quero um meia fixo e também não quero três. Eu quero três jogadores no meio de campo que sejam capazes de trocar constantemente de posição e ocupar os espaços. Se movimentando para onde possam melhor explorar as defesas adversárias quando estiverem com a posse de bola".
A diferença do esquema de Guardiola é que Low sempre utiliza um volante forte e robusto, que não se caracteriza pela sutileza das suas jogadas. Esse homem é Sami Khedira do Real Madrid. Apesar de ele ter perdido quase toda a preparação da seleção em 2014, por causa do ligamento rompido, Low está confiando totalmente em seu estilo de jogo e também em sua capacidade de liderar a seleção.
Outra semelhança com o estilo de jogo do Bayern dirigido por Guardiola é o desinteresse de Low por atacantes convencionais. O técnico da seleção escolheu apenas um: Miroslav Klose, com 35 anos. Os gols da Alemanha devem vir do meio de campo.
Representado pelos jogadores Philipp Lahm, Toni Kroos, Bastian Schweinsteiger, Thomas Müller, Jérôme Boateng, Mario Götze e Manuel Neuer, sete jogadores do Bayern de Munique deverão se apresentar no Brasil. Todos eles são considerados possíveis titulares e nenhum deles, com a exceção do goleiro Neuer, possui uma posição definida na seleção. Exatamente por isso eles desempenharão um papel decisivo na definição do esquema de jogo da Alemanha. Isso porque Low não pretende simplesmente copiar o modelo de controle de posse de bola do Bayern de Munique.
Recentemente o técnico da seleção destacou o esquema de contra-ataques incisivos que o Real Madrid utilizou para vencer o Bayern e que o Borussia Dortmund operou tão perfeitamente no último ano. O resultado provável será a mistura dos dois estilos de jogo, com a ênfase em um ou outro dependendo do adversário.
* Este artigo é parte da série "Olhar Estrangeiro", produzida por 32 veículos de mídia dos países que disputam a Copa do Mundo, como UOL, Guardian (Inglaterra) e France Football (França).
Tradutor: George El Khouri Andolfato