Pressionado por Ministério Público, BB abre mão de sigilo que cerca dinheiro do Itaquerão
Roberto Pereira de Souza
Do UOL, em São Paulo
Pressionado pelo Ministério Público Federal em São Paulo, o Banco do Brasil decidiu abrir mão do sigilo bancário que cerca o financiamento do Itaquerão, futuro estádio do Corinhtians, junto ao BNDES. A operação tem a Odebrecht como tomadora do empréstimo e controladora da futura arena, por meio do Fundo de Investimento Imobiliário fechado.
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A operação tem ainda a corretora BRL Trust como parceira da construtora na formação da Sociedade de Propósitos Específicos (SPE). As duas empresas terão controle total sobre as obras e as futuras receitas do estádio, incluindo naming rights (batismo do estádio).
O MPF quer saber detalhes dessa complicada operação envolvendo dinheiro público em um estádio privado.
O BB é o intermediário do financiamento estatal de R$ 400 milhões, que ainda está sendo negociado entre Odebrecht e BNDES. O estádio deve custar R$ 820 milhões. Títulos emitidos pela Prefeitura de São Paulo devem ser negociados no mercado para a captação de mais R$ 420 milhões.
A decisão do BB de abrir mão do sigilo do financiamento foi tomada com a concordância da Odebrecht, responsável pela engenharia financeira que vai trazer dinheiro para a construção e entrega da arena, em dezembro de 2013, a tempo de ser sede de abertura da Copa do Mundo, em meados de 2014.
"Conversamos com a nossa cliente e fomos autorizados a fornecer todas as informações necessárias ao Ministério Público Federal, em São Paulo" revelou uma fonte do Banco do Brasil que participou das últimas reuniões internas sobre a quebra espontânea do sigilo bancário.
O procurador da República José Roberto Pimenta, que pediu as informações ao BB, quer analisar os detalhes que cercam o financiamento do futuro campo do Corinthians, com dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (R$ 400 milhões) e com a venda dos títulos de incentivo emitidos pela Prefeitura de São Paulo, os CIDS, no valor de ( R$ 420 milhões).
O BB negou os dados alegando sigilo bancário diante do primeiro pedido enviado pelo procurador, semana passada. O procurador ameaçou entrar com uma ação civil para obter os contratos e arriscou um segundo pedido formal ao banco.
O segundo pedido foi analisado pela diretoria jurídica do BB, que fez contato com a Odebrecht em São Paulo. A construtora derrubou o sigilo para evitar desgaste público na relação como o próprio banco.
Entre as informações necessárias ao entendimento do financiamento aparece o prazo de financiamento junto ao BNDES.
O Corinthians só será dono da nova arena depois de quitar, em 15 anos, o empréstimo do BNDES que será transformado em débito de R$ 730 milhões ( com juros e taxas de risco incluídos).
Outra informação relevante que deverá constar do pacote enviado pelo BB: a Odebrecht controlará a arena porque será responsável pelo empréstimo assinado com o BNDES.
Além disso, a construtora terá ainda de bancar o fluxo de caixa da obra. Caso o Corinthians não honre as parcelas do financiamento (cerca de R$60 milhões ao ano, corrigidos), a construtora assumirá os encargos e aumentará sua participação nas cotas do fundo.
Outra informação relevante que será analisada pelo MPF: o Fundo de Investimento Imobiliário terá validade de 16 anos, um a mais que o limite dado para quitação do financiamento. Nesses últimos doze meses, o FII fechará a contabilidade para saber se o clube pagou o empréstimo e se a dupla Odebrecht/BRL Trust foi remunerada no período. Quitado o empréstimo, o clube assumirá o Itaquerão.
Desde o início de sua petição, o procurador Pimenta torcia para que esses e outros dados do negócio fossem abertos, sem obstáculos jurídicos. O MPF dever receber os dados oficiais do BB nas próximas horas.
Em Brasília, a diretoria operacional do BB e o departamento jurídico celebraram a decisão de abrir mão do sigilo das operações com a Odebrecht, escapando de um confronto judicial.
Na opinião do procurador da República José Roberto Pimenta, "financiamento bancário feito com dinheiro público não pode ser protegido por sigilo".
O procurador Pimenta viu " uma ilegalidade gritante" na manutenção do sigilo quando o BB se negou a fornecer os dados do contrato de intermediação e dos critérios usados na aceitação das garantias oferecidas pela construtora.
Funcionários do banco têm opinião mais amena sobre o sigilo bancário:
"Desde o primeiro pedido de informações o BB se colocou à disposição do MPF, dizendo que, se houvesse uma ordem judicial ou a autorização do cliente, as informações seriam liberadas", informou uma fonte ligada ao BB, em Brasília.
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