Chegou a hora da 'Copa das Copas' conhecer o velho Felipão

Gustavo Franceschini e Paulo Passos

Do UOL, em Teresópolis (RJ) e Fortaleza (CE)

O velho Felipão está de volta. O técnico rei de mata-mata, desconfiado, que trata os rivais como inimigos e aposta no vale tudo para vencer diz ter ressurgido. Ao menos é o que ele prometeu após a classificação contra o Chile, no último sábado, após um enxurrada de lágrimas dos seus jogadores em campo. Na entrevista coletiva no Mineirão, o comandante da seleção brasileira levantou a voz e mandou um recado.

"Estamos sendo muito cavalheiros, muito educados com os estrangeiros. Falei isso com os jogadores no vestiário. Está na hora de mudar um pouco o nosso discurso. Não devemos ser apedrejados por técnicos, jogadores e imprensa estrangeira. Está na hora de eu voltar um pouco ao meu estilo: ser agressivo. Não estou conseguindo aguentar mais", disse o técnico.

A declaração soou como planejada pelo técnico, já que a pergunta feita por um jornalista sueco era sobre a atmosfera vivida pela seleção no Mineirão e sobre o risco que Scolari passou de ser eliminado precocemente na Copa.

Quem conhece bem Felipão acha que a mudança prometida faz parte de uma estratégia, uma mensagem aos jogadores. Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, ex-presidente do Grêmio e amigo do técnico, conviveu com ele na década de 1990 no clube gaúcho. Cacalo acha que o comandante da seleção está tentando mexer com um time que mostra sinais de insegurança.

"Eu não acho que ele vai mudar estilo. Eu vejo como um discurso público para mandar recado aos jogadores. Ele nunca afrouxou. Está tentando motivar o time", disse. "Não vejo o estilo dele como agressivo. A palavra que melhor descreve o jeito Felipão é irresignação. Não se entregar jamais. Ele é bom estrategista, mas é o maior comunicador com os jogadores que eu já vi. E está precisando atuar assim. O time parece inseguro", completou.

A primeira reação mais exaltada de Felipão durante a Copa do Mundo aconteceu após a estreia do time, na vitória de 3 a 1 sobre a Croácia. O pênalti marcado pelo juiz em Fred foi questionado pela imprensa internacional. O técnico se irritou e vazou informações de que havia um complô contra o Brasil.

A estratégia de procurar e apontar para um "inimigo", usada em toda a carreira do técnico como forma de motivar seus jogadores, estava armada novamente. Desde então, Felipão passou a marcar e citar todos os lances em que acredita que o seu time foi prejudicado.

O segundo alvo foi o técnico holandês Louis Van Gaal. Sem citar o nome do treinador, mandou indiretas quatro vezes na entrevista coletiva prévia ao jogo contra Camarões. Tudo porque o europeu disse que o Brasil era favorecido por jogar depois do grupo B, o que lhe dava a chance de poder escolher o rival da próxima fase.

"Ele é burro ou mal-intencionado ao falar isso", disparou Felipão, que nem tinha sido questionado sobre as declarações do holandês.

Volta ao passado

A carreira de Felipão é marcada por títulos e algumas escorregadas no fair play. Um dos casos mais marcantes na trajetória do técnico foi uma fala dele com seus atletas no Palmeiras antes de um clássico contra o Corinthians, pela Libertadores de 2000. A conversa em que o ele orientava seus jogadores sobre como agir com Edilson, então atacante corintiano, foi captada pelo microfone da TV Globo.

"Cadê a malandragem de vocês? Nunca aprenderam nada na vida? Tu sabe que ele é malandro, espeto e tal, mas é covarde. C..., cafajeste. Eu tenho um time rodado, experiente, mas que na hora do bem bom não sabe dar um pontapé, não sabe dar um cascudo, irritar o cara", gritou Scolari.

A divulgação da conversa fez os jogadores do Palmeiras, sob orientação de Scolari, não falarem mais com a imprensa até a partida. O clima tenso deu resultado. Depois de perder por 4 a 3 a primeira partida, os palmeirenses fizeram 3 a 2 na segunda e venceram na disputa de pênaltis.

O episódio está longe de ser isolado na história do treinador. Em 1996, antes da decisão do Campeonato Brasileiro, Felipão fez o lateral Arce andar com uma perna engessada na frente de jornalistas. A ideia era criar uma dúvida na comissão técnica da Portuguesa. Era um engodo do técnico, e o paraguaio jogou normalmente na partida que deu o título ao Grêmio, então comandado pelo técnico.

Em Portugal, Felipão também aprontou das suas. Logo que chegou, entrou em atrito com o presidente do Porto, queixoso de que seu clube emplacava poucos jogadores na seleção portuguesa que estava sob o comando do treinador. Em 2007, já consagrado no país, ele acertou um soco no sérvio Dragutinovic durante uma partida, o que lhe valeu uma suspensão da Uefa.

Estilo tem origem em "guru"

Uma pergunta para Felipão sobre quem é a sua maior referência profissional invariavelmente virá com o nome de Carlos Froner como resposta. O "capitão", como era conhecido, foi técnico de Felipão na década de 1970. Fez carreira no Rio Grande do Sul e chegou a ter uma passagem rápida no Flamengo de um então novato chamado Zico.

Quem conheceu Froner costuma dizer que, comparado com ele, Felipão é um moderado. Bronco, às vezes rude e boca suja, mas vencedor e muito querido pelos seus jogadores, são as descrições ouvidas pelo UOL Esporte por pessoas que conviveram com o guru de Scolari.

No livro "Alma do Penta", sobre a conquista de 2002, o jornalista Ruy Carlos Ostermann relata que Froner usava um tabuleiro onde cada jogador era representado por um cabo de vassoura. Era comum que, no meio da preleção, ele derrubasse um dos cabos para assustar o jogador em questão, dizendo: "Bandido, tu já estás te entregando!". Era o jeito dele de chamar a atenção de um atleta mais preguiçoso.

"Ele era um cara que tinha aquela coisa de linha dura, mas ao mesmo tempo um coração maior que tudo", disse Valdir Espinosa, que foi comandado pelo técnico no Grêmio. "Era um chefe excepcional, apesar de ser exigente", conclui.
 

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