Geração alemã dá última cartada para não entrar em grupo frustrado

Patrick Mesquita

Do UOL, em São Paulo

Adversária do Brasil na semifinal, a Alemanha possui uma geração que certamente entrará para a história do futebol mundial. Só resta saber se será lembrada como gloriosa ou fracassada. A resposta depende, e muito, do que vai acontecer nesta terça-feira, no Mineirão, quando a partir das 17h (horário de Brasília) os rivais entram em campo para definir um dos finalistas da Copa do Mundo.

Em um trabalho de formação desde 2006, quando Joachim Löw assumiu a vaga deixada por Jürgen Klinsmann, a Alemanha encheu os olhos de quem admira futebol nos últimos oito anos, mas alguns fracassos decisivos impediram a equipe de largar o grupo de "eternas promessas" e se consolidar entre as campeãs. Assim, 2014 é a última chance para alguns nomes evitarem um gigantesco 'quase' que aconteceu com grandes seleções, como a França comandada por Platini ou o Brasil de Zico.

Nomes como Bastian Schweinsteiger (29 anos), Lukas Podolski (29 anos), Philipp Lahm (30 anos) e, principalmente, Miroslav Klose (36 anos) são os veteranos deste grupo e símbolos do processo de evolução dos últimos anos. O rendimento fez com que todos fossem respeitados no cenário mundial, mas podem ficar com uma mancha na carreira por conta de algumas decepções acumuladas com a camisa da seleção, apesar do sucesso em clubes.

Para entender melhor o processo é preciso recapitular um pouco a história recente do futebol da Alemanha. Em 2006, o país recebeu a Copa do Mundo e a seleção passava por um processo de renovação. Recheada de remanescentes do vice em 2002, a equipe via a esperança renascer com a ascensão de alguns jovens. Um dos principais era Schweinsteiger. Carinhosamente chamado de "Schweini", o então garoto de apenas 21 anos era visto como uma das maiores promessas do elenco. Com a mesma idade, Podolski despontava como parceiro de Klose no ataque. Já Lahm era apenas um ano mais velho, mas também contava com grande apoio popular.

Juntos, eles participaram de uma campanha sólida e acima das expectativas, que terminou com um terceiro lugar. As chances de título foram destruídas após a derrota, por 2 a 0, para a Itália. Mas a vitória sobre Portugal na disputa pelo 3º lugar satisfez a torcida e deu uma pequena amostra do que poderia vir nos anos seguintes. Vale destacar que Podolski foi eleito o melhor atleta jovem da Copa, superando Cristiano Ronaldo e Messi.

Patrik Stollarz/AFP Todos sabemos que temos a capacidade de melhorar como jogadores. A nossa próxima meta é nos classificarmos para a próxima Copa, e se conseguirmos, tenho a impressão que seremos bem-sucedidos Bastian Schweinsteiger , após terceiro lugar em 2006

A esperança voltou ao coração dos alemães em 2008, na Eurocopa. Com o elenco ainda misturando jogadores jovens e veteranos, a seleção mesclava a segurança da continuidade, principalmente com Joachim Löw no comando, e ares de renovação no método de jogo. O resultado dentro de campo foi positivo, mas os planos de título foram atrapalhados após o primeiro encontro com aquele que viria a ser um incômodo adversário: o tiki-taka espanhol. Assim, após a derrota por 1 a 0 para o time de Xavi e Casillas deixou a Alemanha com o vice.

A geração alemã estourou em 2010. Com um time quase inteiro renovado, Schweinsteiger, Podolski, Lahm e Klose ganharam a companhia de Manuel Neuer, Mesut Özil, Sami Khedira, Tony Kroos e Thomas Müller. O futebol demonstrado em campo foi encantador. Com jogadas rápidas, finalizações precisas e muita velocidade, o time comandado por Löw despontou como um dos principais candidatos ao título. 

A alegria terminou na semifinal e no segundo encontro com o tiki-taka. Dominada pelos incansáveis passes dos espanhóis, a Alemanha viu a primeira grande decepção da atual geração acontecer após uma nova derrota por 1 a 0. Um outro terceiro lugar foi o "prêmio de consolação".

O que foi apenas um "coração partido" em 2010 virou um verdadeiro fracasso dois anos depois. Como pode uma seleção tão talentosa não vencer facilmente a Euro 2012? Não só poderia como aconteceu. Com o elenco no auge para a competição disputada na Polônia e Ucrânia, os alemães carregavam a expectativa de uma decisão e finalmente uma revanche contra a Espanha. Não foi nem de perto o resultado esperado. A Alemanha tombou de forma surpreendente, por 2 a 1, para a Itália de Mario Balotelli na semi.

Marcus Brandt/EFE Estamos muito decepcionados, mas não devemos cometer o erro de questionar todo o trabalho feito pelo time. A equipe fez um grande campeonato Joachim Löw, após queda na Euro 2012

O fracasso deu espaço para que alguns olhares desconfiados começassem a surgir para Schweinsteiger, Podolski, Lahm e Klose.

Agora madura, a Alemanha veio para 2014 mais uma vez como uma das favoritas e alcançou pela quarta vez seguida a semifinal da Copa do Mundo. O desempenho até aqui tem sido sólido, mas os questionamentos são mais fortes do que nunca. Antes das oitavas de final contra a Argélia, Lahm teve que responder sobre o título que ainda não coroou a geração.

"A Alemanha já ganhou três vezes a Copa, e não temos muitos países que fizeram algo assim. Essa geração tem um grande potencial. Se for o suficiente para esse torneio, veremos. Mas temos que mostrar isso no campo", disse em entrevista coletiva.

A partida contra o Brasil é crucial para o sucesso ou fracasso de uma das melhores gerações alemãs. Na história eles já estão, mas resta saber se como campeões ou fracassados. 

Grandes gerações que fracassaram em Copas
  • Divulgação
    Alemanha Ocidental de Rummenigge (1978-1986)
    Caso seja derrotada pelo Brasil, a Alemanha será comparada invariavelmente a geração de Karl-Heinz Rummenigg. Um dos símbolos da então Alemanha Ocidental, o atacante foi um dos líderes de um elenco que acumulou três fracassos em Copas do Mundo, entre 78 a 86. Os maiores foram em 82 e 86, quando acumulou dos vices. O prêmio de "consolação" foi a Eurocopa de 1980. Foto: Divulgação
  • Getty Images
    Brasil de Zico (1978 - 1986)
    O Brasil do fim da década de 70 também ficou marcado pelas decepções em Copas do Mundo. Com Zico como um dos principais nomes, a geração era cotada como uma das favoritas. No entanto, três fracassos atrapalharam a safra de craques. A pior decepção veio em 82, quando Zico, Júnior, Sócrates e Falcão foram derrotados pela Itália, com três gols de Paolo Rossi. Foto: Getty Images
  • Getty Images
    França de Platini (1978 - 1986)
    Contemporânea a Brasil e Alemanha Ocidental, a França comandada por Michel Platini teve uma geração encantadora em três Copas do Mundo, mas decepcionou em todas. A principal aconteceu em 1986, quando os franceses derrotaram o Brasil nos pênaltis e estavam cotados para o título. Mas o tombo para a Alemanha Ocidental, por 2 a 0, colocou fim ao sonho de Platini. A campanha terminou com o 3º lugar. Foto: Getty Images
  • Ross Kinnaird/Getty Images
    Argentina de Verón (1998 - 2006)
    Após a era Maradona, a Argentina teve uma geração de grandes nomes que figuraram entre os melhores do mundo por pelo menos oito anos. Verón, Batistuta, Crespo e Zanetti são alguns desses astros. No entanto, o desempenho em Copas não foi nada perto do que esperavam os argentinos. Foram duas quartas de final (1998 e 2006) e uma desclassificação na primeira fase em 2002. Foto: Ross Kinnaird/Getty Images

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