Brasil prioriza físico a tática em treinos e se dá mal

Gustavo Franceschini

Do UOL, em São Paulo

A seleção se apresentou em 26 de maio para uma maratona de 49 dias até o sonhado título. Confiante de que o trabalho estava no caminho certo desde a Copa das Confederações, a comissão técnica optou por cuidar com carinho do físico dos jogadores. Para não aderir à onda de lesionados, o Brasil tirou o pé ao longo da Copa do Mundo, só que a falta de treinos pesou no maior vexame brasileiro da história.

A preocupação com a condição física dos jogadores sempre foi um norte do trabalho da comissão técnica. No terceiro dia de trabalho na Granja Comary, em Teresópolis, o médico José Luiz Runco e o preparador físico Paulo Paixão admitiram que alguns jogadores chegaram desgastados. A dupla adiantou que quem estivesse mal faria trabalhos de fortalecimento à parte e previu que todos atingiriam o auge da forma no mata-mata.  

O cuidado com o corpo era natural. A Copa do Mundo perdeu, por lesão, jogadores como Ribery, Falcão e Reus, entre tantos mais. Outros, como o uruguaio Luis Suarez, vieram ao Brasil baleados. Um grupo menor teve problemas de desgaste já durante o torneio, como Di Maria e Aguero.

O Brasil perderia Neymar no fim da Copa, mas por um choque, uma pancada. Nenhuma lesão muscular, porém, acometeu o grupo brasileiro. Felipão sempre teve em mãos sua força máxima, um presente da comissão técnica.

O plano de treinos
Toda a preparação foi pensada para não "estourar" o elenco. Até a estreia na Copa do Mundo, quatro dos 18 treinos programados inicialmente pela comissão técnica foram cancelados, quase 25% do total. Em vez de trabalhar em dois períodos, como se imaginava inicialmente, o Brasil foi a campo uma vez só por dia, nem sempre priorizando treinos técnicos ou táticos. Tudo para que todos seguissem à disposição.

Na primeira fase da preparação, a seleção foi para a caixa de areia montada na Granja Comary e mais de uma vez fez circuitos de exercícios físicos no gramado. Sempre que possível, o trabalho era feito com bola, tática de Paulo Paixão para que os jogadores gostassem mais das rotinas. Quando Felipão entrava em cena, em geral o trabalho misturava técnica e movimentação, com deslocamentos de laterais com trocas de passes entre meias e muitos cruzamentos.

Ao longo do período em que teve os jogadores sob seu comando, Felipão pediu bastante esmero nas bolas paradas, mas nunca treinou faltas laterais e escanteios com tanta insistência. As repetições, em geral, só aconteciam durante os coletivos, mas não mais que duas vezes, embora. A seleção deu mais foco às cobranças diretas, com Neymar sempre como o principal batedor.

Agenda e falta de tática
Poucas vezes o Brasil se debruçou sobre o próprio esquema tático. Quando aplicou treinos em campos reduzidos, Felipão pouco participou da atividade. Seu papel era mais ativo nos coletivos de fato. Passeando pelo campo, quase sempre dava orientações com base no adversário seguinte. 

Contra a Croácia, isso ficou evidente. Em um dos trabalhos mais produtivos que a seleção fez na Granja Comary, Felipão cobrou um posicionamento diferente dos laterais e atacantes do time reserva, que simulavam o adversário da estreia. Foi a única vez que o treinador fez isso diante dos olhos da imprensa.

Quando a Copa começou, a agenda da seleção ficou mai escassa, especialmente por conta da opção feita pela comissão técnica. Sempre pensando na condição física dos jogadores, Felipão e companhia distribuíram três folgas após os jogos ao elenco, que já havia tido uma antes do pontapé inicial do torneio. O Brasil chegou às quartas como o time que menos treinou, como mostrou um levantamento feito pelo UOL Esporte

Mais que os dias livres, impressionou a carga exigida dos jogadores. Depois do dia livre, os titulares sempre fora do trabalho em campo para um treino regenerativo, expediente comum a todos os clubes e seleções. O problema é que no dia posterior, em duas oportunidades, eles seguiram vendo o trabalho dos reservas, enquanto ainda se recuperaram do desgaste.

"Eu posso te explicar pelo departamento médico e físico, foi tudo planejado. Você sabe que depois do jogo, por pelo menos 48 horas, eles não podem fazer um treino técnico. Não tivemos lesão nenhuma, não tivemos dificuldade nenhuma. Quando precisamos dos 120 minutos, corremos e passamos por cima dos 30 minutos do adversário. Só tomamos um gol de bola parada na competição", disse Felipão, em uma mistura de explicação e orgulho, na última quarta.

A explicação médica dada pelo treinador não chega a ser uma regra. Colegas semifinalistas do Brasil, argentinos, holandeses e alemães não tiveram pudor de colocar seus craques para jogar antes do prazo apresentado por Felipão. E não ter seu elenco em campo não foi uma opção que deu frutos a Felipão.

Olho demais na imprensa
Ao contrário do que imaginava a comissão técnica, o Brasil não começou a Copa do Mundo pronto, e precisou de ajustes ao longo do torneio. Sem tempo para treinar, a seleção teve tempo exíguo para aprimorar seu jogo. Quando tentou mudar a escalação, Felipão ainda preocupou-se mais com a imprensa que com o próprio time.

No jogo decisivo, Bernard venceu a briga com Willian e Paulinho pela vaga de Neymar tendo treinado apenas alguns minutos no time titular ao longo de toda a preparação. Depois do 7 a 1, Felipão admitiu que não usou o ex-atleticano na Granja para manter o mistério.

Despistar os repórteres, aparentemente, era mais importante que saber se Bernard comporia bem o meio-campo com Oscar, Fernandinho e Luiz Gustavo ou se deixaria o trio órfão atuando isolado pela ponta, como acabou ocorrendo. E não foi a primeira vez que Felipão escalou alguém sem testá-lo.

Quando entrou em campo no lugar de Paulinho, no intervalo da vitória sobre Camarões, Fernandinho foi para a vaga de segundo volante. Até ali, ele nunca havia jogado no time titular naquele setor desde o começo da preparação. Era Felipão, de novo, tentando dar um chapéu na imprensa.

"Muito foi falado da parte física e muito foi cobrado da parte técnica. Se forem olhar os dados da Fifa, foi o mesmo número de treinos da Copa das Confederações. Temos aqui os dados para passar para vocês. Não tem nada de diferente naquilo que a gente imaginou. O diferente foi esse confronto com a Alemanha e o número de gols", disse Felipão.

Só que a goleada não aconteceu do nada. Muitos dos problemas que explicam o tamanho da derrota para a Alemanha já estavam visíveis no dia-a-dia da seleção, e tudo isso pesou e definiu. D

Diante da Alemanha, o meio-campo do Brasil não soube criar espaços e opções para fugir da disciplina tática dos europeus. A marcação esburacada também teve seu papel, abrindo avenidas para o contra-ataque germânico nas laterais. Até o abalo emocional, tema de atenção após o jogo contra o Chile, apareceu no 7 a 1.

A seleção, que esperou poder ser campeã sem ter de treinar muito, caiu feio. Pelo menos não se machucou. 

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