Pelé adota tom crítico e diz que boicotou Copa de 74 contra ditadura

Samir Carvalho
Do UOL, em Santos (SP)

  • Art Rickerby/Time & Life Pictures/Getty Images

    Pelé também declarou apoio aos manifestantes e criticou a construção de estádios

    Pelé também declarou apoio aos manifestantes e criticou a construção de estádios

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Pelé adotou um tom crítico ao falar sobre Copa do Mundo e também sobre a série de protestos que tem acontecido no país. Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o Rei do Futebol declarou apoio aos manifestantes, criticou a construção de estádios e até revelou que boicotou o Mundial da Alemanha Ocidental, em 1974, como forma de protesto contra a ditadura.

Pelé, que havia aposentado a camisa canarinho em 1971, ressaltou que recebeu o convite para voltar a defender a seleção brasileira na Copa de 74, mas rejeitou porque a ditadura estava prejudicando demais o povo. O ex-camisa 10 lembra que o regime político do Brasil piorou em comparação à Copa do Mundo de 70, quando foi campeão com a seleção no México.

"Pediram para eu voltar para seleção, eu não voltei. Eu já tinha me despedido do Santos, mas eu estava bem demais. Mas o Geisel (presidente da República entre 1974 e 1979), a filha dele, veio falar comigo, para eu voltar e jogar a Copa de 74. Por um único motivo não aceitei: estava infeliz com a situação da ditadura no país. Estava preocupado com o momento. Em apoio ao país, eu recusei, pois estava muito bem (físico e técnico) e poderia jogar em alto nível", afirmou Pelé.

"A ditadura estava exigindo demais do povo. Em 1970 era diferente, a seleção era comandada pelo Zagallo (técnico), mas o Parreira e o Coutinho eram do exército, e a situação era melhor", completou.

Agora, Pelé voltou a fazer comparações com o passado para demonstrar apoio ao povo contra os políticos do Brasil. O ex-camisa 10 fez questão de dizer que é a favor das manifestações no Brasil e ressalta que apenas pediu para o povo não vaiar a seleção brasileira que disputa a Copa das Confederações.

A postura é diferente daquela apresentada em uma entrevista dada na semana passada, à TV Tribuna, de Santos, afiliada da Globo. "Vamos esquecer toda essa confusão que está acontecendo no Brasil, todas essas manifestações, e vamos pensar que a seleção brasileira é o nosso país, é o nosso sangue. Não vamos vaiar a seleção. Vamos apoiar até o final", falou, na ocasião.

Ao UOL Esporte, ele disse que essa entrevista não era, exatamente, contra os protestos, mas a favor da seleção. "No milésimo gol eu disse que teria que dar escola para as crianças, dar futuro ao Brasil. Duas dessas gerações (de manifestantes) eram crianças naquela época ou não tinham nem nascido. Foi um mal entendido. Sou a favor do movimento, sempre estive ao lado do povo, a única coisa que eu pedi era para não vaiar a seleção, pois era inicio da Copa das Confederações, já estavam vaiando o Neymar. A manifestação é correta. Temos que reivindicar o melhor para o povo brasileiro", explicou.  

Pelé diz que foi contra construção do Itaquerão e comemora 'veto da PEC 37'

Apesar de atuar como embaixador da Copa do Mundo de 2014, Pelé também não deixou de criticar a construção de algumas Arenas em Estados do país que o futebol não gera grande retorno de público. O Rei do Futebol, inclusive, lembrou que apoiou a reforma do Morumbi e, por isso, foi contra a edificação do estádio do Corinthians, em Itaquera, que receberá a abertura da Copa.

"Eu dei entrevistas na época e disse que gastaria muito menos se fizesse uma reforma no Morumbi em vez de construir um estádio novo, como fizeram em Itaquera. Cansei de dizer isso, mas passa batido e o pessoal não lembra. Em relação e escolas e hospitais, eu já falei, até no milésimo gol. Achei exagero em alguns estados que a final (das competições estaduais), onde tem os campos de futebol construídos, a final não chega a 25 mil pessoas e fizeram estádios de 45 mil, 50 mil. Mas deveríamos ter visto isso no inicio, agora virão turistas demais e temos que levar em consideração. Vai trazer algum beneficio", declarou.

Por fim, Pelé comemorou alguns resultados imediatos dos manifestantes pelo Brasil. Entre eles, o veto do Projeto de Emenda Constitucional número 37/2011, conhecido como PEC 37, de autoria do deputado federal e delegado Lourival Mendes (PT do B-MA). A matéria era uma das propostas polêmicas em tramitação no Congresso Nacional que estavam na mira de protestos na onda de manifestações pelo Brasil. 

"Isso é importante, pois foi o que eu falei, temos que estar do lado certo, correto, o povo tem que sair para reivindicar. Eu tenho uma experiência pessoal. Quando eu saí do ministério, eu tinha o projeto das vilas olímpicas. Eu não continuei no ministério, pois o governo do Lula parou com esse projeto nosso, que era o esporte, as vilas olímpicas, com a educação", concluiu.

Pelé
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