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Copa 2018

Fuleco da final de 2014 revela bastidores do mascote. E hoje está na Record

Andrey Lopes como o personagem Chico Gouveia da novela "Apocalipse" - Divulgação
Andrey Lopes como o personagem Chico Gouveia da novela "Apocalipse" Imagem: Divulgação

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/02/2018 04h00

Na edição 2011 do Rock in Rio, um fã invadiu o palco quando a cantora Shakira cantava “Waka Waka”. Ele foi rapidamente enxotado para fora por três seguranças, mas o momento está imortalizado no YouTube.

Três anos depois, Alemanha e Argentina entraram em campo no Maracanã para a final da Copa do Mundo. Como já acontecera em todas as partidas do torneio, lá estava Fuleco, seu mascote oficial, entretendo o público enquanto a bola não rolava.

Hoje, quem coloca na Record às 20h45 assiste à novela “Apocalipse”, que tem entre os personagens o arrojado cinegrafista Chico Gouveia. Mas o que peripécias em um festival de música, uma final de Copa e uma trama bíblica têm em comum? O ator curitibano Andrey Lopes, 28 anos. Isso mesmo: trata-se da mesma pessoa.

Teste para Fulecos

“Tudo começou em 2012. A Fifa fez um teste para selecionar mascotes e, como eu já tinha feito mascotes outras vezes, fui a um hotel aqui do Rio fazer o teste”, conta Lopes. “Não podia nem entrar com celular porque a fantasia ainda era muito sigilosa, ninguém tinha visto ainda.”

Esse casting para Fuleco contou, segundo o ator, com cerca de 15 participantes. Quem quisesse passar precisava, antes de tudo, mostrar alguma desenvoltura com a pesada e quentíssima fantasia de tatu-bola.

“Eram várias camadas de fantasia, que você precisava vestir em etapas. Primeiro tinha que colocar um colete, depois braços, pernas...Para você ter uma ideia, cada fantasia custava uns 80 mil reais”, diz Lopes.

Com experiência anterior como mascote – o ator já tinha se apresentado, por exemplo, como o personagem Sid, da animação “A Era do Gelo” – Lopes convenceu o pessoal da Fifa sobre sua capacidade. “A galera ficava meio tímida para fazer as coisas. Eu já comecei a pular, a fazer as paradas, e o pessoal gostou, entendeu?”

Calor impunha limite de tempo

Começava ali a carreira de Fuleco que levou Lopes a se apresentar em uma miríade de eventos promocionais, publicitários e, claro, partidas da Copa do Mundo. Tudo em paralelo com os outros compromissos do ator, que continuou atuando principalmente em peças de teatro e anúncios para a televisão.

Só durante a competição ele precisou se dedicar integralmente às demandas da Fifa, quando calcula ter feito um bom dinheiro. Os mascotes ganhavam por apresentação, o que rendeu a Lopes entre três e cinco mil reais por mês de trabalho.

Andrey 03 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Lopes na Arena da Baixada, em Curitiba
Imagem: Arquivo pessoal
“Como a fantasia era muito quente, não podíamos passar mais de meia hora como mascote”, conta o ator. “Eu fiz a primeira aparição oficial do do Fuleco. E foi na praia de Boa Viagem, no Recife. Tive que correr debaixo daquele baita calor”, lembra o ator. 

Esse limite de meia hora, explica Lopes, passava a contar a partir do momento que o ator vestia a cabeça do mascote. Ou seja, se ele demorasse dez minutos para chegar a um determinado lugar, só poderia atuar como Fuleco por mais vinte minutos. Tudo para evitar que o ambiente insalubre dentro da fantasia terminasse em eventuais peripaques. “Se passar desse tempo a pessoa morre, né?”, brinca Lopes.

Proibido aceitar bebidas

O ator lembra que, nesta ocasião em Recife, até batia um ventinho vindo do mar. Já era alguma coisa para aliviar a fornalha ambulante que ele vestia, mas o design do Fuleco não permitia um refresco maior. Basicamente, o único orifício da vestimenta eram os olhos, que ainda ficavam cobertos por um pano. Pelo menos, conta Lopes, a cabeça do Fuleco era grande o bastante para que o ar circulasse e ele pudesse respirar.

O ator tem uma foto na qual aparece com a fantasia desmontada. Teme, porém, que divulgá-la fira as regras da Fifa, que provavelmente não quer que imagens de um mascote desmembrado acabe com a magia em torno do personagem. 

Entre os quesitos avaliados pela entidade estava o de como se portar diante de crianças. “Não tinha uma orientação específica. Eles queriam ver como você se iria se portar ao interagir com elas. Você vai abraçar, vai fazer o quê?”, explica Lopes. “Em outro teste, você ficava vendado e sem a fantasia. Uma pessoa ia te guiando. Queriam ver sua percepção, se você escutava, conseguia abaixar, fazer os movimentos.”

Veementemente proibido, revela o ator, era segurar objetos que pudessem desagradar aos patrocinadores. A regra valia principalmente para bebidas. Então, se em algum momento da Copa passada você ofereceu um refrigerante ou uma cerveja para um Fuleco, e ele recusou, saiba aque não foi nada pessoal.

Mascote também passa perrengue

Como é de se imaginar, dois anos como Fuleco renderam lembranças curiosas a Lopes. Ele calcula que, contando com os jogos, participou de eventos em pelo menos 15 estados. Conheceu Ronaldo Fenômeno, Luciano Huck, Zagallo e Shakira (sim, ele a reencontrou como Fuleco), entre outros famosos. A maratona de obrigações como mascote da Copa foi tão intensa que alguns episódios até hoje permanecem um tanto embaralhadas na cabeça de Lopes.

“Era uma gravação com o Ronaldo...Já estava de noite e tive que correr no meio de árvores. Não enxergava quase nada porque a visão de dentro do Fuleco era meio ruim...Foi em um parque em São Paulo, acho que no Ibirapuera”, conta o ator.

E quem imagina que a vida de Fuleco era só glamour e carinho, saiba que nem o mascote da Copa escapa de momentos tensos. Em um ensaio para um evento no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, Lopes entrou em campo cercado de crianças. Uma delas notou os velcros que ligavam as diferentes partes da fantasia, e sua reação nada teve de fair play.

“Um gordinho, eu nunca vou esquecer o rosto dele, começou a puxar o casco da fantasia e a gritar para as outras crianças que eu era de mentira. Ele me empurrou, eu caí no chão e as crianças começaram a me bater”, conta Lopes. “Me batiam e eu não conseguia falar nem levantar do chão por conta da fantasia."

E esse não foi o único momento no qual, digamos, faltou educação no tratamento ao mascote brasileiro. O ex-Fuleco conta que era comum, durante os jogos, torcedores mostrando o dedo do meio para o Tatu-Bola. “Eu respondia mandando uma banana, e as pessoas riam.”

De novo a Shakira

Os fulecos normalmente tinham seus próprios camarins, com ar condicionado e cooler com bebidas para repor todo o líquido que invariavelmente seus poros deixavam dentro da fantasia. Também sempre tinham um carro para levá-los aos jogos e eventos, mas isso não significava conforto em todas as ocasiões.

Andrey 01 - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Lopes com o apresentador Luciano Huck
Imagem: Arquivo pessoal
“Uma vez fui chamado para um evento promocional em um supermercado e tive que me trocar do lado de um freezer”, lembra Lopes. “Quase que a Fifa não deixou”. O ator também deixa claro que, apesar de mais de uma fantasia estar disponível nos eventos, acontecia de ele precisar revezar o mesmo Fuleco com outra pessoa. “Aí era meio sinistro porque vinha toda a parada (suor) do outro moleque.”

O reencontro com Shakira aconteceu na preparação para o show de encerramento da Copa. “No ensaio, o Fuleco entrava sem a fantasia porque era muito quente. Encontrei a Shakira e perguntei se ela lembrava de 2011, e ela disse ´claro que lembro´. É muito louco isso, qual é a probabilidade de alguém encontrar duas vezes com a Skakira?”, diverte-se Lopes.

Fuleco virou protagonista de cinema

Lopes imagina que, além da final, tenha atuado em pelo menos um terço de todos os jogos da Copa. Ele diz que não chegou a se surpreender com o convite para ser o Fuleco da final justamente porque, naquela altura, já sabia que a organização confiava nele.

Quando não estava interagindo com os torcedores nos intervalos dos jogos, ou tentando se livrar de hordas deles pedindo para tirar uma foto, Lopes aproveitava seus privilégios.

Assistia às partidas de dentro de campo. Além disso, como os camarins dos Fulecos eram muito próximos aos túneis de entrada e saída dos jogadores, ele viu bem de perto algumas das maiores estrelas da competição, como o argentino Lionel Messi.

Antes de encarnar Chico Gouveia em “Apocalipse”, o ex-Fuleco fez pontas em “Malhação”, “Amor à Vida” e “Além do Horizonte”, da Rede Globo, e papéis maiores em séries como “Detetives do Prédio Azul” e “Procurando Casseta & Planeta”. Também apareceu no cinema em filmes como “Uma pitada de sorte”, “Não pare na pista – A melhor história de Paulo Coelho” e “Fuga da Rocinha”, seu primeiro trabalho como protagonista.

“Vamos dizer que o Fuleco me deu sorte”, diz Lopes sobre a carreira ter deslanchado depois que ele tirou o casco das costas.

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