Copa 2018

Crimeia: para quem você torce quando vive em uma "terra de ninguém"?

Alexey Druzhinin/AFP
Putin discursa em frente a monumento histórico na cidade de Yalta, em Crimea Imagem: Alexey Druzhinin/AFP

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL

20/12/2017 04h00

Cidadãos da Crimeia interessados em acompanhar a próxima Copa do Mundo têm descoberto que não podem comprar ingressos. Ao tentar fazê-lo, o site da Fifa responde com uma mensagem de erro.

Não se trata de um problema técnico, mas geopolítico. Em 2014, a península no litoral do Mar Negro, até então pertencente à Ucrânia, foi anexada pelos russos. A comunidade internacional até hoje não reconhece a anexação. Como a Fifa aparentemente adotou a mesma posição, a Crimeia hoje se encontra em um limbo também futebolístico.

“A Fifa considera a Crimeia como parte da Ucrânia de acordo com as leis internacionais”, explica Mykola Shevchuk, jornalista da agência de notícias local QHA. “Desde dezembro de 2014, clubes da Crimeia estão proibidos de participar de competições organizadas pela federação russa de futebol.”

A notícia de que moradores da Crimeia não estavam conseguindo comprar ingressos para a Copa do Mundo chamou atenção principalmente da mídia russa. A rede RT, por exemplo, publicou reportagem na qual a ministra dos esportes da Rússia, Natalya Parshikova, reconhece o problema e alerta que torcedores da Crimeia devem checar no site da Fifa se a entidade reconhece seus locais de residência.

“A venda de ingressos é feita pela Fifa, e em seu site você encontra a Geórgia, mas não a Crimeia”, disse então a ministra. Ela, inclusive, estendeu o aviso a moradores de outras regiões em limbo geopolítico, como Kosovo e Abkhásia.

Futebol está desaparecendo na região

Para Shevchuk, a questão vai muito além da compra de ingressos. Ele explica que, para não prejudicar o futebol da região, a Uefa decidiu criar um campeonato apenas com clubes da Crimeia. Uma primeira edição do torneio, realizada em 2015, teve a participação de vinte times. Ao seu final, oito acabaram escolhidos para integrarem oficialmente a Liga de Futebol da Crimeia.

“É preciso notar, porém, que o nível do futebol praticado na Crimeia, em comparação ao período anterior à anexação ilegal, caiu drasticamente”, diz o jornalista. “Bons jogadores não vêm jogar aqui. Por causa da baixa arrecadação, os clubes têm orçamentos baixos, fazendo nosso campeonato ter mais em comum com competições amadoras.”

Para piorar, Shevchuk conta que o interesse do público pelo futebol também caiu significativamente. “Podemos dizer que, sem a Ucrânia, o nosso futebol está morrendo”.

A Crimeia e seus torcedores pagam o preço da confusão étnica e política da região. A Ucrânia se tornou independente com o fim da União Soviética em 1991, mas boa parte do leste de seu território – onde está a Crimeia – ainda é majoritariamente habitada por uma população de origem russa.

No final de 2013, os russos da Crimeia se revoltaram quando a Ucrânia voltou atrás em um tratado que estreitaria relações comerciais com a Rússia, ao invés de com a União Europeia. O então presidente ucraniano Viktor Yanukovich foi destituído e fugiu para o país vizinho. O parlamento da Crimeia, dominado por um grupo pró-Rússia, aproveitou o momento para aprovar a adesão à Rússia e realizar um referendo.

Tanto o governo da Crimeia quanto o referendo, que supostamente validou a separação, foram considerados ilegais pela Ucrânia e criticados por boa parte da comunidade internacional. Nada que impedisse o presidente russo Vladimir Putin de enviar tropas à região sob a alegação de ajudar a “normalizá-la”.

Pavel Rebrov/Reuters
Militares russos em evento no porto de Sevastopol, na Criméia Imagem: Pavel Rebrov/Reuters

A real participação dos soldados russos no conflito é até hoje um enigma, pois muitos deles teriam atuado na Crimeia sem a identificação oficial das forças armadas. A Ucrânia fala em mais de 30 mil deles, número contestado com veemência por Putin. O fato é que o novo governo da Crimeia acabou dando um ultimato para que seus oficiais do exército pró-Ucrânia se rendessem, abrindo definitivamente o caminho para a anexação pela Rússia.

E para quem você torce em uma Copa do Mundo quando vive em um lugar nesta situação? “Ucranianos e tártaros da Crimeia, em sua grande maioria, não irão apoiar a seleção russa durante a Copa. Consideram a Rússia uma força de ocupação. Quem irá torcer por ela é a população (de origem russa) que tem sido sistematicamente realocada pelas autoridades russas para a Crimeia, além de seus apoiadores”, diz Shevchuk.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está fechada

Não é possivel enviar comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Mais Copa 2018

Topo