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Brasil estreará na Copa na "capital mundial dos serial killers"

Wikimedia Commons/Reprodução
Rostov, no sudoeste russo, é conhecida pela fama e quantidade de assassinos em série Imagem: Wikimedia Commons/Reprodução

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

12/12/2017 04h00

A Copa do Mundo se aproxima e muito será dito sobre os atrativos de Rostov (ou Rostov-on-Don), palco do primeiro jogo da seleção brasileira, contra a Suíça, no dia 17 de junho. Mas, apesar de sua importância histórica e econômica, a cidade no sudoeste da Rússia é conhecida como a "capital mundial dos serial killers".

Uma breve pesquisa na internet já revela essa desagradável alcunha. São muitas as reportagens e livros que abordam a estranha capacidade da cidade em produzir assassinos em série. Desde a década de 90, pelo menos trinta deles foram descobertos na região. Uma "tradição" que começou com o mais famoso serial killer russo: Andrei Chikatilo.

Entre 1978 e 1990, o ucraniano matou, com requintes de sadismo e crueldade, pelo menos 53 pessoas na área de Rostov. Pai de família, membro do partido comunista e com alto grau de instrução, Chikatilo demorou a ser pego porque, à época, um homem com esse perfil dificilmente era considerado suspeito pela polícia soviética.

Ele se livrou até mesmo quando foi descoberto carregando um verdadeiro "Kit assassinato". Foi em uma estação de trem em 1984. Abordado pela polícia, revelou que carregava uma faca na maleta, além de outros instrumentos para lá de suspeitos. Chegou a ter o sangue testado, mas os ultrapassados métodos científicos empregados na União Soviética não indicaram compatibilidade com os fluidos encontrados nas vítimas.

Reprodução
Andrei Chikatilo, o "açougueiro de Rostov" Imagem: Reprodução

Por trás da imagem do “perfeito homem soviético” residia uma alma atormentada pelo passado e pela impotência sexual. Chikatilo nasceu em 1936, quando a Ucrânia ainda se recuperava da fome em massa que a devastou. Nos anos 30, cerca de cinco milhões de pessoas morreram de fome na União Soviética.

Quatro milhões delas estavam na Ucrânia, que por razões políticas foi deixada deliberadamente sem alimentos pelo então ditador Josef Stalin. Historiadores e testemunhas desse período relataram que os ucranianos recorreram até ao canibalismo para sobreviver, e o irmão de Chikatilo teria sido uma das vítimas. Pelo menos, era o que sua mãe lhe dizia: para ele tomar cuidado se não quisesse ter o mesmo fim do irmão, sequestrado e literalmente comido.

Para piorar, o pai de Chikatilo foi capturado pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Ele voltou para casa em 1949, mas, a despeito da vitória no conflito, inspirava vergonha e humilhação: os soldados de Stalin deveriam morrer em batalha ou vencê-la. Ser pego pelo inimigo não era uma alternativa digna.

Mesmo com essa infância problemática, Chikatilo fez faculdade, arranjou emprego como professor, casou-se e teve dois filhos. Havia, porém, o outro componente em seu caldo de perturbações pessoais. O futuro serial killer tinha sérias disfunções sexuais, a ponto de, especula-se, só conseguir engravidar a mulher masturbando-se e inserindo o sêmen na parceira.

Suas vestes de “cidadão normal” caíram quando, em 1978, Chikatilo começou a usar um casebre para molestar uma garota de nove anos. Ele acabou por matá-la a facadas e passou dois anos sem cometer outro crime. Mas as pulsões homicidas voltaram, e o número de vítimas explodiu ao longo dos anos 80. 

O julgamento de Chikatilo aconteceu durante seis meses em 1992. No tribunal, ele ficava em uma jaula para não ser atacado pela turba revoltada de parentes das vítimas. Acabou condenado à morte e executado com um tiro na nuca em 1994. Chikatilo entrou para a história como o “açougueiro de Rostov”, mas fazê-lo confessar os crimes foi uma tarefa difícil. 

Após ver todos seus métodos de interrogatório falharem, a polícia resolveu pedir ajuda ao psiquiatra Alexander Bukhanovsky. Afinado com as técnicas mais avançadas dos norte-americanos, ele conseguiu fazer Chikatilo falar e ficou famoso.

Reprodução/Wikimedia commons
Vítimas da fome na década de 30 na Ucrânia Imagem: Reprodução/Wikimedia commons

Em uma entrevista para a revista “Newsweek” em 1999, Bukhanovsky defendeu que não há motivos específicos para Rostov produzir tantos assassinos em série. Para ele, a cidade simplesmente tem mais experiência em capturar serial killers. Mais deles entraram para as estatísticas, tornando-as naturalmente mais elevadas que no resto da Rússia.

Para o advogado criminalista Thiago Anastácio, a explicação de Bukhanovsky para a fama de Rostov faz sentido. Se uma determinada cidade ou país adquire conhecimento em serial killers, provavelmente irá capturar um número maior deles. O que não significa produzir um número maior de assassinos. Um local pode ter um número baixo de serial killers simplesmente porque a polícia ainda não foi capaz de descobri-los. 
 
"É muito difícil identificar se uma cidade especifica reúne condições mais adequadas ao surgimento de serial killers. Precisamos fazer a seguinte pergunta: por que nessa cidade? O que aconteceu de diferente lá?", diz Anastácio. "Talvez a cidade tenha alguma característica específica que acione o gatilho mental do assassino".
 
O advogado ressalta também que o surgimento de serial killers não está ligado ao índice de criminalidade de um lugar. Ou seja, cidades violentas não necessariamente terão mais assassinos em série. "O serial killer não é o criminoso habitual ou ocasional. É um criminoso patológico. Mesmo que ele saiba o que está fazendo", explica Anastácio. 
 
"O maníaco do parque (serial killer de São Paulo famoso nos anos 90), por exemplo, foi considerado uma pessoa sã pela Justica. Mas alguém vai dizer que ele não carrega uma patologia?". 

Quem o Brasil vai enfrentar na Copa da Rússia?

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