Desconfiado, atrapalhado e gozador: causos do Felipão que você não conhece

Paulo Passos

Do UOL, em São Paulo

Antes de assumir a seleção brasileira pela segunda vez, Luiz Felipe Scolari rodou o mundo como técnico. Portugal, Kuwait, Japão, Emirados Árabes e Uzbequistão foram alguns do destinos do gaúcho de Passo Fundo. Nas andanças, acumulou títulos, dinheiro e boas histórias, que costuma dividir com os amigos. Algumas delas foram relatadas por eles ao UOL Esporte. Causos que revelam um pouco da personalidade do homem que terá a missão de comandar o Brasil na busca do hexacampeonato mundial.

O gozador pragmático

Cesar Greco / Fotoarena
Inseparáveis Felipão e Murtosa, seu auxiliar técnico, já eram em 1990, antes dos títulos que deram fama ao treinador da seleção. Neste ano, porém, a dupla quase de desfez.

Após completar a primeira temporada no Kuwait, o braço direito de Scolari já não agüentava mais a vida longe do Brasil. Reclamava do calor, das limitações impostas no país de maioria muçulmana, da saudade da família. Um dia se queixou tanto ao colega e amigo que decidiu: "não dá, vou embora!"

Felipão tentou convecê-lo a ficar, cumprir o contrato de mais um ano e depois voltar. Sem sucesso na conversa, fingiu que aceitou. No melhor estilo "Don Corleone", o gaúcho descendente de italianos bolou uma proposta que o amigo não teria como recusar.

"Matuto que é ele sabia o que faria Murtosa mudar de ideia", conta João Garcia, jornalista amigo da dupla. "Foi para o seu quarto sozinho e esparramou os dólares que eles receberam no primeiro ano e estavam guardando na colcha da sua cama e o chamou para uma despedida".     

Quando o auxiliar entrou no quarto e olhou para o dinheiro, Felipão perguntou: "E ai, vai voltar ou vamos fazer outra colcha dessas?"

Murtosa só deixou o Kuwait um ano depois, após a dupla cumprir o contrato até o fim.

O vizinho atrapalhado no Japão

FLAVIO FLORIDO / UOL
Manda a tradição em Iwata, no Japão, que o novo morador deve visitar seus novos vizinhos e apresentar-se. Como o novato era Luiz Felipe Scolari, recém-contratado como técnico do Júbilo, maior time da cidade, a ordem se inverteu e o técnico não precisou bater de porta em porta para dizer quem era. Os vizinhos organizaram uma pequena festa para ele.

De uma coisa, porém, Felipão não poderia escapar. Teria que falar algo para os seus novos vizinhos.

"Ele tinha recém chegado e sabia quase nada de japonês. Eu tentei orientar algumas coisas", lembra Shiro Kawauchi, que trabalhava como tradutor no clube.

Algumas palavras básicas foram ensaiadas e o cumprimento tradicional, com os braços colados nas pernas e o movimento de curvar-se em frente ao outro, treinado.

Na hora do brinde, veio a brecha para Scolari falar. Com uma taça na mão, mas nada na cabeça o técnico olhou para o seu "salvador". Tudo o que tinha sido combinado com Shiro virou um branco. Era hora de improvisar. Felipão, então, ergueu a taça e disse: tintin!

Tudo perfeito, não fosse uma coisa: o som "tintin" em japonês é o modo coloquial para dizer pênis.

"Foi um constrangimento geral", conta rindo o tradutor. "O japonês não está acostumado a rir de situações com piadas maliciosas. Mas eu expliquei o que era em português, disse que ele pediu desculpas e ficou tudo bem".

O bom motivador também erra

2014. EFE/Marcelo Sayão

Em 1989, Felipão completava o primeiro ano como técnico do Qadsia, do Kuwait, com a chance de ganhar um título. Antes da final da Copa do Emir, preparou uma palestra para os jogadores e não teve dúvida sobre a temática que usaria para motivar os atletas: Guerra!

"Na conversa, dei um enfoque de que aquilo, o jogo, era uma batalha, uma verdadeira guerra. Disse que tinham que ir para morrer, se fosse preciso", lembra Felipão. "Mas enquanto eu falava, comecei a notar que a reação não era muito boa. Vi alguns brabos, outros tristes. Até que o capitão, levantou o braço e pediu para falar comigo em particular".

Sem entender, aceitou e deixou a sala com o jogador, que não escondia a irritação. A sós com o técnico, o capitão do time deu uma verdadeira bronca.

"Ele explicou que todos ali tinham passado por uma guerra e até perdido pessoas próximas", conta Felipão.

"Disse que eu deveria mudar aquilo e que tinha que pedir desculpas", completa. O técnico admite que não quis voltar atrás na hora, mas cedeu. "Fui lá e pedi desculpas. Todo mundo se abraçou, vencemos o jogo e o título. Mas quase que eu estraguei tudo", lembra. 

Antes de tudo um desconfiado

Wander Roberto/VIPCOMM
Quando chegou a Portugal, Felipão logo se assustou com o que viu na primeira janta dos jogadores da seleção. Eles bebiam vinho. Sim, uma só taça era o que lhe diziam os funcionários da federação. Mas quem disse que o desconfiado gaúcho de Passo Fundo acreditava naquilo?

"Eu olhei e pensei: isso não vai dar certo! Mas o presidente me disse que era assim, que eles tomava um cálice e paravam. Eu com cabeça daqui do Brasil, tinha certeza que não ia dar certo", lembra.

Na janta, na frente de todos, Felipão viu que cada um bebeu, no máximo, uma taça. Não era o suficiente para ele dormir tranquilo.

"Fiquei desconfiado", admite.

A solução foi fazer uma visita surpresa nos quartos de alguns jogadores que Felipão classificava como mais "arriscados". Ninguém estava bebendo. O técnico jura que o vinho nunca foi um problema durante sua passagem em Portugal.    

Cabeça-dura, mas nem tanto

FLAVIO FLORIDO/UOL
Faltavam menos de quatro semanas para o Grêmio embarcar para o Japão e disputar a sua partida mais importante no ano, a final da Copa Intercontinental, contra o Ajax. Felipão já era um ídolo no clube por ter vencido a Libertadores da América meses antes em 1995, mas não estava satisfeito. Mais do que isso, ele estava "p... da vida" com o desempenho do time, que patinava no Campeonato Brasileiro, lembra o então vice-presidente de futebol do clube, Luiz Carlos Silveira Martins.

"Depois de uma derrota para a Portuguesa, em Capecó, ele chutou o balde. Me chamou e disse: Cacalo, estou fora! Não vou nem voltar com vocês para Porto Alegre", conta o cartola. "Tentei demover ele da ideia, disse que ele estava louco, que íamos jogar o Mundial, mas nada o fazia mudar de ideia. Pedi só para ele voltar com a gente e conversariamos em Porto Alegre".

Ao embarcar no avião, Cacalo foi abordado pelo comandante do voo, que disse ser gremista e fã de Felipão. Após a decolagem, o dirigente levou o técnico à cabine e o apresentou ao piloto.

"Sai, deixei os dois lá. Ele se distraiu, ouviu um torcedor, viu que aquilo de pedir demissão não fazia sentido. Já quanto descemos no aeroporto, ele já tinha desistido e nem tocamos mais no assunto".



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