Operários treinam para o Brasileirinho na quadra recém-inaugurada no Itaquerão de grama cinza
O campeonato começa em maio com cobertura da imprensa, árbitro profissional e 40 times brigando pelo troféu que só será entregue em uma festa no fim do ano. Não, não estamos falando do Brasileirão. É o Brasileirinho, torneio dos operários da obra do Itaquerão que tem regras inusitadas, clássico espanhol e até transmissão ao vivo.
Ruim Madrid está distante do clube que o inspirou, mas é um dos favoritos para vencer o Brasileirinho
A competição começa no próximo dia 21, segunda-feira, dois dias depois do certame nacional para não ‘disputar mídia’, segundo os organizadores. Apesar do tom de brincadeira, as partidas vão atrair microfones de verdade e a estreia será transmitidas ao vivo pela Rádio Estádio, que funciona internamente na obra.
A inspiração vem do Brasileirão, mas tem pinta de torneio europeu com um clássico espanhol. O Ruim Madrid e o Barcelama estão em grupos diferentes, mas podem se enfrentar já na segunda fase e estão cotados entre os favoritos. “Respeitamos os adversários, mas vamos entrar para ganhar”, conta o atacante dos ‘merengues genéricos’ Eliaquim Silva, que incorporou não só o espírito artilheiro de Cristiano Ronaldo, mas também o vocabulário boleiro.
A segunda edição do Brasileirinho está turbinada. Realizado com 16 times no ano passado, o torneio tem agora nada menos que 40 equipes com média de 12 jogadores, sendo seis titulares. São quase 500 participantes que, até o mês de novembro, ganharão nova motivação para trabalhar na construção do estádio que abrigará a abertura da Copa do Mundo e será casa do Corinthians.
ENTENDA A FÓRMULA DE DISPUTA
1ª fase – O campeonato é dividido em dois grupos A e B formados por 20 times. Todos as equipes se enfrentam dentro de suas chaves. Ao final, quatro de cada grupo serão eliminados.
2 ª fase – Os16 restantes de cada grupo se enfrentam em jogo único definido por ‘cruzamento olímpico’: Ex: 1º do A x 16º do B, 2º do A x 15º do B
3ª fase – Também no formato mata-mata. Dos 16 times classificados, os oito melhores colocados se enfrentam e os 8 piores colocados também jogam entre si. O mesmo acontece na 4ª fase, restando assim apenas quatro times
5ª fase – As semifinais serão disputadas normalmente em cruzamento olímpico. Os vencedores fazem a grande final. Os derrotados se enfrentam na disputa de terceiro e quarto lugar.
E o trabalho é sempre prioridade. As quatro partidas diárias serão disputadas de segunda a sexta entre 18h e 20h justamente para atender os três turnos. Existem até regras ‘anticontusão’ para ninguém ser vetado pelo DM e virar desfalque na obra por causa da pelada.
Foi pensando nisso que o organizador do torneio e gerente operacional, Frederico Barbosa, criou algumas leis inusitadas. Além dos tradicionais cartões amarelos e vermelhos, o cartão azul também será usado como punição para uma falta grave que não mereça expulsão. Quem for penalizado, ficará alguns minutos fora do jogo e doará 3 kg de alimentos não-perecíveis, repassados a uma instituição carente no fim do ano.
Se o Campeonato Brasileiro tem o STJD, na versão operária não poderia faltar um tribunal. Uma comissão de cinco pessoas avaliará os casos de deslealdade e pode banir do torneio o atleta mais indisciplinado. Barbosa também promete palestras de conscientização.
“No ano passado, eu sorteei os times. Dessa vez eles têm liberdade para escolher. Assim vão criar mais grupos e panelinhas, e a rivalidade será acirrada. Quando tem bola e o árbitro apita, todo mundo quer ganhar. Por isso, vou conversar com todos eles e criar alguns mecanismos para que não haja deslealdade. O nosso objetivo é apenas integrar e divertir”, afirmou.
E se é tão levado a sério pelos jogadores, a organização não fica atrás. O Brasileirinho terá arquibancada para 200 pessoas, roupeiro e lavanderia, refletores já em fase de teste, súmula e até árbitro profissional. Cinco juízes da Federação Paulista de Futebol e cinco mesários vão se revezar para não deixar passar nenhum detalhe.
O troféu já está sendo confecccionado e deverá ficar exposto na quadra para despertar o desejo de todos os atletas. Sairá de lá apenas para ser entregue na festa de fim de ano, juntamente com as medalhas de 2º e 3º colocados.
A estreia também promete ser com pompa. Os organizadores vão divulgar o nome da quadra, escolhido por votação entre os funcionários e mantido sob sigilo em ‘sete chaves’, e uma celebridade foi convidada para dar o pontapé inicial. Uma apresentação de chorinho com a música Brasileirinho, de Waldir Azevedo, dará as boas vindas à competição que ganhará um charme extra com apresentações de futebol feminino.
Não é à toa que a quadra recém-inaugurada já está em plena atividade. Desde o mês passado, os atletas ocupam a grama cinza – não é verde para não fazer alusão ao rival Palmeiras, nos amistosos preparatórios e existe fila por um horário vago. Assim como o Brasileirão, o Brasileirinho promete.
GALÁCTICOS, RONALDOS, RENEGADOS: OS 40 TIMES DO BRASILEIRINHO