Daniel Cassol/UOL Esporte

Jogador do São Paulo-RS lamenta um gol perdido contra o Cruzeiro-RS

11/06/2010 - 07h36

Alheios à Copa do Mundo, clubes gaúchos lutam por vaga na primeira divisão

Daniel Cassol
Em Porto Alegre

RIVALIDADE AGITA A SEGUNDA DIVISÃO

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    Cruzeirense Adalto diz que odeia Inter e Grêmio

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    Pequena torcida do Cruzeiro incentiva a equipe

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    Charanga do São Paulo apoia o time no Estrelão

“Parece que está começando um torneiozinho lá na África”, desdenhava o jornalista Ernani Campello enquanto comemorava a vitória do seu Cruzeiro de Porto Alegre diante do São Paulo de Rio Grande. Na véspera do início da Copa do Mundo, nada era mais importante do que a fase final da Segundona Gaúcha para os pouco mais de 500 torcedores que foram ao estádio Estrelão, na zona norte de Porto Alegre.

A competitiva segunda divisão do futebol gaúcho segue no seu quadrangular final até o próximo dia 19, enquanto as atenções do futebol estarão voltadas para a África do Sul. Depois de quatro meses de competição e outras 22 equipes eliminadas, restaram na disputa pelas duas vagas na primeira divisão gaúcha apenas Lajeadense, Brasil de Farroupilha, São Paulo e Cruzeiro. Fiéis aos seus modestos times, os torcedores “ignoraram” a Copa do Mundo e fizeram do acanhado e embarrado Estrelão o centro mais importante do futebol mundial na tarde desta quinta-feira, em Porto Alegre.

“Se estivesse acontecendo um amistoso do Cruzeiro e uma final de Copa do Mundo, eu iria assistir ao jogo do Cruzeiro”, resumiu Dirceu de Castro, presidente do clube, que nos seus 96 anos de história ostenta, como maiores títulos, o campeonato gaúcho de 1929 e o pioneirismo estadual nas excursões à Europa, ainda na década de 50.

Há 31 anos longe da primeira divisão, tendo um intervalo de 12 anos sem futebol profissional, o Cruzeiro conserva uma pequena mas fiel torcida, que se irrita quando falam “Cruzeirinho” e não faz questão de apoiar outro time da capital. Caso do aposentado Adalto de Oliveira, impaciente na arquibancada enquanto a partida ainda estava em 0 a 0. “Meu avô era cruzeirista, meu pai é cruzeirista também. Isso vem de família. Não gosto do Grêmio nem do Inter”, disse o torcedor. O único evento esportivo capaz de mobilizá-lo estava acontecendo ali. “Isso aqui, pra mim, é maior que a Copa do Mundo. Nada me emociona tanto. No dia em que o Cruzeiro morrer, eu morro também”, completou Adalto, emocionado.

Por ser dia de semana, o público no Estrelão era um pouco menor do que o da primeira partida do quadrangular, no feriado da última quinta. De Rio Grande, a torcida do São Paulo trouxe cerca de 200 torcedores – e duas charangas. Já a torcida cruzeirista contava com o apoio de uma pequena “barra brava” formada por adolescentes que reproduziam cânticos da dupla Gre-Nal.

Em campo, o Cruzeiro ensaiou uma blitz para tentar o gol nos minutos iniciais. Chegou a acertar uma bola na trave, mas a ofensiva esbarrou na boa marcação do São Paulo, que começou o jogo na defesa.

O São Paulo amarga a segunda divisão há menos tempo - oito anos. Tradicional clube gaúcho, o São Paulo foi fundado em 1908 e tem uma das uma das maiores torcidas do interior do Rio Grande do Sul.

Entre eles, Carlos e Déborah Figueiredo. O casal se fantasiou nas cores do São Paulo e viajou 320 quilômetros entre Rio Grande e Porto Alegre para torcer pelo São Paulo. “Só depois que terminar este campeonato é que eu vou torcer para o Brasil”, afirmou Déborah, proprietária da única vuvuzela avistada no Estrelão.

“O São Paulo é uma paixão na cidade de Rio Grande. Estamos numa luta titânica para colocá-lo na primeira divisão”, explicou o presidente do São Paulo, Jair Rizzo. Na arquibancada junto à torcida, o cartola explicava com entusiasmo os projetos para o clube da zona sul do Estado e não mostrava nenhum interesse pelo Mundial da África do Sul. “Eu nem sei se tem Copa do Mundo este ano, sinceramente. Nossa Copa é o São Paulo subir para a primeira. Não estou acompanhando nada mesmo. É só São Paulo 24 horas por dia”, afirmou.

No segundo tempo, o técnico Beto Campos, do São Paulo, colocou mais atacantes na equipe e começou a assustar os donos da casa. Não demorou muito e Benhur Pereira, treinador do Cruzeiro, também mandou a campo mais atacantes – e o jogo ficou aberto.

O Cruzeiro seguia pressionando, mas num contragolpe o São Paulo só não fez um gol porque o atacante Mazinho errou em bola a passos da linha do gol, depois de uma escapada do atacante uruguaio Cristian Fabian, que ao final do jogo lamentou que sua seleção tenha ficado em um grupo difícil, com França, México e África do Sul.

Após o susto, o Cruzeiro reagiu. Primeiro com o movediço atacante Jô, que limpou a zaga do São Paulo e mandou a bola na trave. Em seguida, numa confusão na grande área, Adriano ficou com a bola na pequena área e primeiro chutou em cima do goleiro Douglas, para depois acertar a trave. “Ali achei que não era o meu dia”, contou no final do jogo o experiente atacante, de 31 anos, formado no Cruzeiro e voltando de dez temporadas na Finlândia e na Noruega.

Aos 43 minutos do segundo tempo, Adriano recebeu lançamento de Diego Costa e mandou a bola no ângulo: um a zero, resultado que põe o Cruzeiro na liderança isolada da Segundona, com sete pontos, próximo do sonho de voltar à primeira divisão.

“Se a gente não subir desta vez, só daqui a 30 anos de novo”, dizia, desconfiado, o veterano torcedor Valnir Barros Couto, 82 anos, dirigente do Cruzeiro na década de 60, quando o Cruzeiro ainda jogava no Estádio da Montanha, hoje um cemitério. Ainda em 2010, o clube deve vender o Estrelão para uma construtora e, com dinheiro, construir um novo estádio em Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre.

O São Paulo tem apenas um ponto, situação que deixou o presidente Jair Rizzo à beira de um ataque de nervos. “Tem que ter hombridade, tem honrar a camisa do São Paulo. Alguma coisa está acontecendo. Estão brincando com o time”, bradava nos microfones das rádios de Rio Grande, após o final da partida. No Cruzeiro, tudo era tranquilidade. Para o próximo jogo, contra o próprio São Paulo, já estão sendo organizadas caravanas para Rio Grande.

Neste domingo, terceiro dia de Copa do Mundo, a Segundona Gaúcha entra no returno do quadrangular final. Quando o Brasil estrear contra a Coreia do Norte, na terça-feira, jogadores, dirigentes e torcedores mais fanáticos do Cruzeiro de Porto Alegre estarão unicamente concentrados na partida do dia seguinte, que pode sacramentar a volta à primeira divisão depois de três décadas. Copa do Mundo? Só depois de concretizar o sonho.

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